Os mais recentes exercícios navais conjuntos entre China e Rússia no Pacífico estão a ser interpretados como muito mais do que simples operações de treino. Segundo a revista ‘Newsweek’, vários especialistas consideram que Pequim e Moscovo estão a testar a capacidade de resposta dos Estados Unidos e dos seus aliados numa das regiões mais estratégicas do mundo.
A tensão aumentou depois de um contratorpedeiro chinês realizar um exercício com fogo real a cerca de 160 quilómetros da ilha japonesa de Okinotori, dentro da zona económica exclusiva do Japão.
Tóquio apresentou um protesto diplomático formal junto de Pequim, alegando que o exercício colocou em risco embarcações que navegavam na área, embora reconheça que a operação decorreu em conformidade com o direito internacional.
Porque preocupa o Japão?
Para os analistas, o local escolhido para o exercício não foi uma coincidência.
O Japão é um dos principais aliados dos Estados Unidos na Ásia e acolhe cerca de 55 mil militares americanos, sendo considerado uma peça-chave na estratégia de Washington para o Indo-Pacífico.
Segundo Raji Rajagopalan, investigadora do Australian Strategic Policy Institute, a China está a adotar um comportamento cada vez mais ousado para enviar uma mensagem clara aos países alinhados com os Estados Unidos.
Além disso, Tóquio tem reforçado a cooperação militar com parceiros como a Austrália e a Índia, assumindo um papel mais relevante na segurança regional — uma evolução que Pequim acompanha com crescente preocupação.
Uma cooperação militar cada vez mais estreita
Desde a invasão russa da Ucrânia, em 2022, China e Rússia intensificaram significativamente a cooperação militar.
Embora não mantenham uma aliança formal, os dois países realizam exercícios conjuntos cada vez mais complexos, incluindo patrulhas submarinas e operações navais de longo alcance.
Os especialistas consideram que esta aproximação permite aos dois países desafiar a influência dos Estados Unidos em zonas que, durante décadas, estiveram sob predominância americana.
O que pretende Pequim?
Além da demonstração de força, as manobras servem para normalizar a presença militar chinesa em águas internacionais próximas dos aliados de Washington.
Segundo os analistas ouvidos pela ‘Newsweek’, isso dificulta os cálculos estratégicos dos Estados Unidos e dos seus parceiros caso venha a ocorrer uma crise no Indo-Pacífico, nomeadamente em torno de Taiwan.
Ao mesmo tempo, Pequim beneficia da experiência militar russa adquirida na guerra da Ucrânia, enquanto Moscovo aproveita a capacidade industrial chinesa, sobretudo no fabrico de componentes eletrónicos e tecnologia para drones.
NATO volta a apontar o dedo à China
Apesar de Pequim continuar a afirmar que mantém uma posição neutra relativamente à guerra na Ucrânia, a NATO considera que a China continua a desempenhar um papel determinante no esforço de guerra russo.
Na declaração final da mais recente cimeira da Aliança Atlântica, os 32 países-membros voltaram a classificar a China como um “facilitador decisivo” da invasão russa, apontando o fornecimento de bens de dupla utilização, como componentes eletrónicos, baterias e tecnologia que podem ser aplicados tanto em fins civis como militares.
Para o Governo japonês, esta aproximação entre China, Rússia e Coreia do Norte reforça a necessidade de aprofundar a cooperação entre a NATO e os seus parceiros no Indo-Pacífico, numa altura em que o equilíbrio estratégico da região está a sofrer uma transformação acelerada.













